Qual é o papel do professor em tempos de polêmicas políticas?

Sex, 15 de Abril de 2016 19:47 Rodrigo Travitzki Em busca da democracia
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Há quem acredite que o professor não pode interferir em política, pois sempre acaba puxando a sardinha pro seu lado. Acho que esse ponto de vista tem uma visão muito restrita do que é política e/ou do que é professor. A política se faz com atos cotidianos, não apenas posições partidárias. E o professor é muito mais do que um transmissor neutro de conteúdos, ele é um exemplo de ser humano, de preferência um excelente exemplo.

O professor, como qualquer outro ser humano, é um ser político, a diferença é que ele precisa ter certos cuidados enquanto "professa". Ele precisa ensinar o aluno a pensar por si próprio, ouvir os outros, entender e ser entendido. Em termos afetivos, o aluno precisa gostar de se expressar e de entender os outros, o que tem tudo a ver com o modo como se opera no cotidiano. Sendo assim, mesmo quando discorda veemente de uma opinião do aluno (ainda por cima mal formulada!), um bom professor talvez perguntasse: "não entendi bem, você pode explicar melhor?". Depois elogiaria a melhor clareza da opinião e perguntaria, então, a opinião da classe. E a conversa continuaria, ampliando nos alunos a capacidade de compreensão de si, do outro e do mundo.

É interessante notar que, nas últimas semanas, a política tem tomado as conversas cotidianas dos brasileiros, como se fosse novela ou futebol. Isso é um ponto positivo de toda essa confusão gerada nas altas esferas do poder, sejam quais forem. Um ponto negativo é que o diálogo entre diferentes se tornou uma violenta e irracional disputa de torcidas. Uma das causas desta falta de diálogo, sugerem as pesquisas do pessoal da USP, é que as pessoas pró e contra impeachment não se informam a partir das mesmas fontes, elas formam bolhas culturais.

Bolhas culturais

O artigo Perfil digital dos manifestantes: o abismo aberto pela polarização (El País, 28/03/2016), de Márcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado, mostra que o abismo entre os manifestantes pró e contra impeachment:

“é menos geracional ou de classe social do que de referências culturais. Nas redes, o efeito bolha dos filtros, causado, seja pela liberdade do internauta em buscar ativamente suas fontes de informação, seja pelos algoritmos das redes sociais que sugerem a ele informações compatíveis com seu perfil, isola os polos do debate tornando o diálogo quase impossível.”

Esta bolha existe tanto em termos de veículos de comunicação quanto de formadores de opinião, como se vê nas duas imagens a seguir.

 

Imagens retiradas de (Ortellado e Ribeiro, 2016)

 

Assim, praticamente não há base comum sobre a qual debater, a conversa fica difícil desde o começo. O portal UOL e o âncora Boechat são exceções nesse sentido.

Algoritmo de vendas formando opinião pública

Uma das causas da polarização, ou de sua nova roupagem, é o algoritmo das redes sociais, como o Facebook. O algoritmo é aquilo que filtra, de tudo que há disponível, aquilo que aparece pra nós quando entramos no site. Para nos manter sempre dentro dele, o Facebook nos mostra aquilo que (ele acha que) nós queremos ver. Pode ser algo que gostamos, que odiamos mas acabamos comentando pra falar mal, ou algo escrito por alguém costumamos ler, esse tipo de coisa. Além disso, podemos excluir as pessoas chatas.

Tudo isso leva a uma bolha informacional, onde todo mundo lê as mesmas coisas e concorda com quase tudo, não entendendo como é possível que exista pessoas que discordem. Tudo parece muito óbvio dentro da bolha. Não é de espantar o baixo nível geral dos comentários – em sites e redes sociais – relacionados a algum aspecto político ou polêmico. As pessoas não sabem dialogar com quem discordam.

Qual é, então, o papel do professor frente às questões políticas? Talvez não seja muito diferente do seu papel nas questões polêmicas em geral: é importante que ele aponte a existência de diferentes lados da mesma questão, de preferência explicando com igual empenho cada ponto de vista. Claro que, em uma comunicação tão íntima como a que existe entre um professor e uma classe, os alunos via de regra percebem as posições dos professores, mesmo que eles não digam. Nesse sentido, se o professor considerar adequado, ele pode dizer aos alunos sua posição, mas isso não é o mais importante. O importante é que ele deixe claro a existência de uma polêmica legítima, e que consiga estabelecer as condições para o diálogo democrático dos alunos.

Diálogos democráticos

Em um diálogo democrático, todos tem direito a falar e ouvir, os canais de comunicação devem estar limpos e confiáveis para garantir o mútuo entendimento. O objetivo é, idealmente, o consenso. Numa democracia, a vontade da maioria é apenas o último recurso, aquele evocado quando há uma decisão urgente e polêmica, e quando não há consenso possível. A maioria, nessa condição, faz sentido. Mas a democracia é, essencialmente, uma multiplicidade de minorias, porque o homem é um ser diverso. E, com ou sem consenso, as minorias precisam de diálogos eficazes para que se possa manter a harmonia da sociedade como um todo.

O que significaria isso em uma escola? Vejamos um exemplo. Para desenvolver as habilidades do diálogo em uma escola, o professor procura fazer com que mais alunos falem, estimulando os mais tímidos e contendo os mais extrovertidos. Além disso, ele precisa também proteger as opiniões discordantes, pois normalmente são rechaçadas pela opinião majoritária, antes mesmo de serem minimamente avaliadas. No fundo, o que o professor precisa garantir é que as diferentes narrativas e opiniões dos alunos possam ser igualmente ditas e compreendidas. Por vezes, como sempre, ele precisa explicar uma coisa ou outra, que não está muito clara para os alunos. Em debates mais longos, adicionalmente, ele pode ter também o papel de garantir certa memória do debate - tanto para dar um retorno aos alunos quanto para tentar promover algum avanço nos temas, evitando discussões repetitivas.

Quando isso é feito, em um ambiente minimamente heterogêneo, os alunos vão gostando cada vez mais de discutir temas polêmicos - políticos ou não. E, como é de se esperar, vão desenvolvendo suas habilidades nesta competência fundamental para as democracias, que é o diálogo. Durante esse processo coletivo, idealmente, as opiniões mais frágeis de cada “lado” são colocadas à prova pelo outro. Além disso, vão ficando mais claras as contradições da vida humana, suas formas particulares, o que ajuda os alunos a irem entendendo o mundo como algo complexo, muitas vezes misterioso, para além do mundo didático. Aliás, como dizem os livros de ciência: é melhor manter a dúvida do que se agarrar a uma certeza incerta.

Certezas incertas

Outra pesquisa desse mesmo pessoal da USP mostrou que nos dois lados (pró e contra impeachment) há muitas pessoas como alta escolaridade que acreditam em boatos lançados pela internet, quando tais boatos atacam seus adversários.

Como professor, isso me faz pensar que não estamos cumprindo muito bem um dos papeis centrais na educação, que é proporcionar a capacidade de leitura crítica do mundo. Desde um sentido mais básico da alfabetização científica, até uma perspectiva mais próxima a Paulo Freire.

Alguns exemplos de boatos amplamente aceitos, segundo a pesquisa realizada por Pablo Ortellado, Esther Solano e Marcio Moretto Ribeiro:

“Mais da metade dos manifestantes do dia 31 [contra o impeachment] concordam que os protestos contra o governo foram articulados pelos Estados Unidos para roubar o pré-sal e que o juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato na primeira instância da Justiça Federal, é filiado ao PSDB. Cerca de 36% ainda concordam que os protestos de junho de 2013 foram orquestrados pela direita.”

Veja mais na matéria Apesar da escolaridade, manifestantes anti e pró-Dilma creem em boatos (Valor Econômico 05/04/2016), de Victória Mantoan.


Este texto foi escrito depois de uma conversa com os alunos de Ensino Médio, na semana anterior à votação do impeachment na câmara.