Quem quer ser professor? Pesquisa revela profissão em baixa

Ter, 02 de Fevereiro de 2010 20:35 Rodrigo Travitzki O educador
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Anda circulando por aí a notícia de que 2% dos jovens querem ser professor (a maioria quer fazer direito, engenharia e medicina). O dado vem de uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, foi divulgado pelo Gilberto Dimenstein e está por toda a rede. As "notícias-espetáculo" se espalham rapidamente, mas pouca gente dá atenção às letras miúdas. Resolvi dar uma olhada na pesquisa propriamente dita e vi muita coisa interessante/alarmante.

De fato, o estudo mostra que a profissão de professor está em baixa no imaginário dos jovens, mas seria bom fazer uma ressalva sobre o número. Esses 2% referem-se aos alunos que querem fazer pedagogia ou alguma licenciatura. Eu, por exemplo, que sou professor há dez anos, não teria feito esta opção no ensino médio. O número aumenta para 11% quando inclui as opções por carreiras acadêmicas, ligadas à docência (matemática, história, etc...).

Desses 2% que querem ser professor, 77% são mulheres. E 87% são de escolas públicas, o que está ligado a outra tendência identificada no estudo: "quanto maior o nível de instrução dos pais, menor a intenção de ser professor". Na escola pública, diz a pesquisa, a maioria dos pais não tem curso superior, ao contrário das particulares. Estes dados confirmam a tese do "apartheid educacional" no Brasil, que alimenta e mantém a desigualdade de oportunidades entre pobres e ricos.

A pesquisa, que a Fundação Victor Civita encomendou à Fundação Carlos Chagas, ouviu 1501 jovens de escolas públicas e privadas.

O estudo diz que 32% deles pensaram em ser professor. Dimenstein destacou os motivos pelos quais esses alunos desistiram da carreira docente: "1) falta de valorização social; 2) salários baixos; e 3) rotina desgastante" (aprendiz). O estudo diz, além disto, que os alunos consideram a profissão árdua porque "apesar de transformadora e respeitável, exige uma forma de dedicação e um saber-fazer que ocupam completamente aquele que a ela se dedica, de modo a exigir demais e retribuir de menos."

Para complementar estas informações vejamos o que os alunos consideraram bom na carreira de professor.

Um dado curioso, ressalta o estudo, é que a realização profissional e a identificação pessoal com a profissão são considerados fatores secundários quando esses jovens pensam em ser professores.

E o que os alunos consideram ruim em ser professor?

O gráfico seguinte também é interessante. Ele compara aqueles que pensaram em ser professor (32% dos alunos), e aqueles que optaram por ser professor (2%).

Este gráfico diz que, no futuro, quem sabe hoje, teremos mais professores "por opção" nas séries iniciais do que nas outras. O que nos leva a pensar que é preciso uma especial atenção nas condições de ensino dos professores do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio. No ensino superior, creio que a razão para a diferença entre os dois casos seja predominantemente a necessidade de uma pós-graduação e também a escassez de vagas.

Bem, a ideia era fazer uma análise mais profunda da pesquisa, mas agora o dever me chama. Preciso preparar as apostilas para meus alunos. Sendo assim, colo abaixo alguns trechos da pesquisa que achei interessantes para se pensar.

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...as falas dos estudantes em relação à docência e ao “ser professor” foram permeadas de contradições e contrastes. Os sentidos que atribuem à imagem da profissão retratam sempre duas perspectivas de análise. Ao mesmo tempo em que conferem à docência um lugar de relevância na formação do aluno e que o professor é reconhecido pela sua função social, retratam que se trata de uma profissão desvalorizada (social e financeiramente) e que o professor é desrespeitado pelos alunos, pela sociedade e pelo governo.

O mesmo contraste é identificado quando fazem referência ao trabalho docente. Para os alunos, é um trabalho nobre, gratificante, permeado de sentimentos de prazer e satisfação; entretanto, é recorrente nas falas os comentários sobre as dificuldades dessa atividade. Trata-se de um trabalho pesado, que requer paciência, muitas vezes frustrante e que vai além da escola. E, ainda, que consome boa dose de energia afetiva decorrente da natureza interpessoal das relações professor/alunos.”

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Um outro aspecto que merece destaque em relação à imagem da docência diz respeito a certas idéias preconcebidas de que para ensinar não é preciso ter uma formação específica. Apesar dos estudantes da pesquisa reconhecerem a complexidade e a exigência da carreira, a docência não é vista como uma profissão que detém um saber específico que a caracterize e a diferencie de outras profissões e que precisa ser aprendido. E quanto maior a proximidade das séries iniciais, maior a percepção de que não é preciso preparo; apenas basta o cuidado”

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Embora não se possa generalizar, a vivência positiva na escola apareceu mais fortemente nas escolas particulares. Os estudantes, de modo geral, acreditam que os docentes da escola privada são mais motivados e melhor remunerados. E os jovens das escolas públicas idealizam o professor da escola particular. Essa valorização excessiva da escola privada merece ser melhor investigada para identificar se, neste contexto, há características específicas que - ultrapassando as questões de infra-estrutura - favoreçam o exercício da docência e possam, eventualmente, ser expandidas a toda rede de ensino.”

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Para terminar, uma referência teórica trazida pelos autores do estudo, que pode ajudar a pensar a profissão de professor.

Roldão (2005) ajuda a compreender essas questões ao discutir o que distingue, sociologicamente, uma profissão de outras atividades. A autora recorre ao campo teórico da sociologia das profissões para identificar um conjunto não uniforme de elementos tidos como descritores de profissionalidade. São eles: o saber específico indispensável ao desenvolvimento da atividade e sua natureza; o reconhecimento social da especificidade da função associada à atividade; o poder de decisão sobre a ação desenvolvida e autonomia do seu exercício e a pertença a um corpo coletivo que partilha, regula e defende o saber necessário, o exercício da função e o acesso a ela.”

 



Fonte:

Fundação Victor Civita
ATRATIVIDADE DA CARREIRA DOCENTE NO BRASIL
Relatório Premilimar, outubro de 2002

Para acessar a pesquisa completa, clique aqui.

Para ouvir o Capital Humano (programa da CBN com o Gilberto Dimenstein), clique aqui.
Última atualização em Qua, 03 de Fevereiro de 2010 11:27