Apostilas do estado com erros ortográficos: o que isto indica?

Seg, 30 de Junho de 2008 13:58 Rodrigo Travitzki Políticas públicas de educação
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Diz o portal do Globo (06/06/2008):

"A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo distribuiu apostilas para os professores da rede pública de ensino com um erro de português. No caderno de dicas entregue aos docentes de inglês da 8ª série a palavra ensino está grafada "encino".

Segundo o professor Carlos Ramiro de Castro, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), o sindicato ainda não terminou de fazer a revisão em todos os livros entregues para serem usados no segundo semestre, mas esta não é a primeira vez que isso acontece.

"Os livros são entregues aos professores sem nenhuma revisão. No início do ano os professores constataram outros erros. Um deles dizia que o rio Xingu estava no Rio Grande do Sul", disse."

Não creio que o material seja completamente destituído de revisão. Lembro-me que a parte de biologia tinha um escritor e revisor. Seria muita irresponsabilidade do estado - e chega a ser uma ofensa à inteligência ouvir isso de profissionais da educação. Mas, enfim, o fato é que um erro desta magnitude passou pela revisão, bem ou mal feita, e isto foi para todos os alunos da rede estadual de São Paulo. E todos os professores deste sistema foram obrigados a trabalhar o material seguindo-o ao pé da letra.

Pois bem. O que isto nos leva a pensar? Caso você tenha alguma idéia, deixe um comentário. Eu fico pensando em velhas questões, como a qualidade de ensino e as formas de gestão do público.

A qualidade de ensino pressupõe bons educadores, bons materiais, boas condições externas à escola... não deve pressupor, creio, bons alunos, visto que esta é uma finalidade e não necessariamente um ponto de partida. Talvez, quem sabe, na Finlândia.. Mas quem escolhe os bons materiais? Quem sabe o que os alunos precisam? O professor? A escola? O estado? O mercado? As editoras? Os pais? Esta é uma pergunta difícil. Vamos tentar fazê-la, então, de outra forma: se os materiais didáticos são ruins, quem será responsabilizado?

Refletindo um pouco, veremos que a responsabilidade sobre o material didático está espalhada sob diversas formas. A pessoa que escreveu e, principalmente, o revisor, a pessoa que escolheu este material (o professor ou a secretária de educação), as pessoas que contratou estas pessoas, além de outros. Há também as pessoas jurídicas, as instituições, mas infelizmente elas não podem ser reponsabilizadas como nós, seres de carne e osso. E quem se responsabilizará de fato? Alguém perderá alguma coisa por fazer com que todos os alunos da rede estadual de São Paulo tenham lido a palavra "encino" num material de ensino? Não creio.

Bem, com tudo isso, onde chegamos? Em dúvidas, problemas, enfim, tudo o que aparece quando se pensa um pouco sobre a educação brasileira. Mas creio que este "espalhamento da responsabilidade real" sobre a educação aponta uma direção em relação à forma de gestão. Se todos são responsáveis e ninguém é punido, isto certamente levará a problemas internos. Este é um ponto. Além disto, se a responsabilidade está espalhada, as decisões não podem ser feitas entre quatro paredes. Elas devem ser públicas, tanto no sentido da ampla participação nas decisões quanto no sentido da transparência dos critérios de decisão.

 

 

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 22:04