Um outro mundo é possível? Os alunos buscam respostas

Como as interações ecológicas do homem são permeadas pela sua cultura?

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Alunos:
Kairin Kikuchi
Marina Frúgoli

Introdução

Neste trabalho pretende-se tratar do nicho ecológico da espécie humana, das suas diferentes interações ecológicas e questionar se estas podem ser comparadas às relações estabelecidas entre outros seres vivos. Tais interações ocorrem entre os próprios homens (intra-específicas) e deste com outras espécies (interespecíficas), podendo elas serem benéficas ou prejudiciais a um dos lados ou aos dois. Muitas vezes, há aspectos culturais e naturais em uma mesma interação, o que torna muito difícil se fazer uma separação clara entre eles.

Na maioria das relações estabelecidas, trazendo estas, benefícios ou não para o ser humano, pode-se observar a adaptação das diferentes espécies ao homem, e também o inverso. Este processo pode ocorrer de forma natural ou artificial, e é representado através dos conceitos de co-evolução e de criação seletiva.

A todo o momento pode-se perceber como o homem está imerso e é totalmente dependente do ecossistema em que vive. Todas as interações que ele estabelece interferem diretamente na dinâmica de populações e no equilíbrio ecológico.

Desenvolvimento

As interações ecológicas mais primordiais já estabelecidas entre os seres vivos são as relativas à alimentação, pois estas permitiram a formação dos níveis tróficos, que são responsáveis pelos ciclos da matéria e o equilíbrio dos ecossistemas. O homem é um consumidor. Portanto, as relações que ele estabelece são de herbivoria e predatismo, que seriam, a princípio, benéficas a ele e prejudiciais aos seres consumidos (como por exemplo, a alface, a cenoura, o boi ou a galinha). Porém, estas interações do ser humano são diferentes das estabelecidas entre outros seres vivos, isto porque culturalmente o homem cria as espécies que consome. Deste modo, resulta-se em uma perpetuação das espécies consumidas, tanto de plantas quanto de animais, o que acaba sendo benéfico para elas, gerando um tipo de cooperação interespecífica. Ou seja, no nível individual, o homem se beneficia e os organismos consumidos se prejudicam, estabelecendo a interação de herbivoria ou de predatismo que são o "padrão" estabelecido entre os seres. No nível ecológico, observando as populações e as espécies como um todo, tanto o ser humano quanto as espécies consumidas são beneficiadas, estabelecendo assim um tipo de cooperação que é raro, se não único, na natureza. Além disso, o homem é o único predador que não consome os animais vivos ou no ato de sua morte. Isso é decorrente de sua complexa divisão de tarefas feita pela sociedade. O congelamento da carne é uma tentativa de simulação, que faz com que o bicho permaneça fresco. Porém, o ato de cozimento é um fator que torna esta interação ecológica ainda mais humana e única.

Outra forma de cooperação estabelecida pelo homem, sendo que esta é mais profunda e faz com que a existência de um seja imprescindível para a do outro, é o chamado mutualismo. Para o bom funcionamento de diversos órgãos do corpo humano, como o intestino ou o estômago, a presença de diversos tipos de bactérias é indispensável. Na flora intestinal, por exemplo, há mais de 400 espécies diferentes, entre elas o Lactobacillus. Sem a presença destas, a função do órgão passa a ser insuficiente para manter o organismo vivo. Ou seja, estas espécies benéficas são imprescindíveis para a nossa existência. Por sua vez, tais bactérias só conseguem viver e se reproduzir de forma adequada quando estão dentro do corpo humano. Neste caso, a relação ecológica de interdependência não é permeada por aspectos culturais, não havendo assim questionamento quanto à legitimidade de sua classificação.

Esta interação ecológica que nós chamamos de mutualismo desperta uma questão: se uma espécie é tão dependente da outra, e vice versa, quem surgiu primeiro? A partir daí que foi criado o conceito de co-evolução. A evolução das espécies nunca se deu de forma independente, sempre foi a partir de interações com o meio (que é o que produz a seleção natural). Provavelmente, o que ocorreu foi que, a partir de um determinado momento, passou a existir uma cooperação entre o antepassado do homem com os antepassados de certos tipos de bactéria. Esta interação fez com que as duas espécies ficassem mais adaptadas e se reproduzissem melhor, mantendo-se assim na existência. Com o passar do tempo, o que era a princípio uma cooperação passou a ser imprescindível para a existência das espécies, tornando-se mutualismo. Com isso, é mostrado que o homem não evoluiu sozinho (embora pudesse parecer, pois não se tinha consciência das interações ecológicas estabelecidas), mas sim acompanhou o desenvolvimento de diversas espécies, o que é chamado de co-evolução.

Em se tratando de relações ecológicas intra-específicas, pode-se afirmar que um importante fator que manteve a espécie humana na existência foi o fato de viver em sociedades. Em termos biológicos, isso significa que os indivíduos de um grupo estão unidos por uma cooperação entre as partes através de uma divisão do trabalho (tarefas) e hierarquia, na qual um garante a existência do outro. Esta interação ecológica é muito comum entre as abelhas, cupins e formigas. Mas a forma de organização da sociedade estabelecida pelo homem pode ser comparada à de outros animais? Não cabe aqui analisar cada aspecto de cada sociedade, mas, em termos gerais, comparando homens e, por exemplo, abelhas, a divisão do trabalho se dá por critérios objetivos, como o gênero e o tipo físico (forte e franco, homem e mulher, etc., embora na humanidade isto seja cada vez menos presente) e, apenas no caso dos homens, por critérios subjetivos (classe social, "inteligência", etc.). Por existir uma gama muito menor de funções, sociedades de outros animais são menos complexas e dificilmente podem ser comparadas à do homem, embora o fator hierarquia esteja sempre presente.

O fato é que, vivendo em sociedades, embora o indivíduo isoladamente possa ser prejudicado em decorrência da hierarquia e da competição imposta, a espécie humana como um todo se beneficia no sentido de, não as partes, mas sim o todo, se mantém na existência e cresce.

 

O aumento da população humana

Ao longo do tempo, com o crescimento numérico da espécie humana, a competição (intra e interespecífica) por alimentos aumentou. Aparentemente, o desenvolvimento da agricultura e de técnicas de criação de animais diminuiu este problema, pois o homem não precisou mais competir consigo mesmo por comida. Porém, passou a competir com outras espécies, já que, com a monocultura, a população de "pragas" aumentou consideravelmente, e estas passaram a apresentar um risco significativo. A luta acirrada entre homens e espécies que se alimentam das plantações é um prejuízo para os dois lados, sendo este um exemplo clássico de competição interespecífica.

Uma forma desenvolvida pelos humanos para combater as pragas foi o uso de agrotóxicos, principalmente de herbicidas, bactericidas e inseticidas. Eles são produtos químicos prejudiciais ao meio ambiente, tanto aos lençóis freáticos que são contaminados quanto aos seres vivos que são atacados. Porém, por se tratar de uma competição, o ser humano também se prejudica, e muito. Os agrotóxicos, por penetrarem nas plantas, vão para o nosso prato e, quando ingeridos pelo homem, podem intoxicar o seu organismo e prejudicar diversas funções do corpo, além de enfraquecer o seu sistema imunológico e colocá-lo vulnerável ao câncer e a um outro tipo de interação ecológica que também o prejudica, o parasitismo.

Com o aumento da população humana que vem ocorrendo pelo menos nos últimos 3 mil anos, o número de parasitas como carrapatos e bichos de pé, assim como o de muitos vírus e bactérias, sendo que estes muitas vezes dependem dos humanos para a sua existência (semelhante ao mutualismo), aumentou drasticamente. Isto faz parte do princípio da dinâmica de populações. Se o número de presas aumenta, o número de predadores o acompanha. A espécie humana não possui nenhum predador que seja significativo ou que apresente reais riscos de diminuição da população, pois os animais selvagens que representavam perigo quando a espécie humana estava surgindo, hoje já foram domados. Porém, os parasitas apresentam um risco considerável.

O parasitismo é uma interação ecológica na qual uma espécie parasita se hospeda em outra espécie e usufrui dela, prejudicando-a. O parasita pode ficar externo (como o piolho) ou interno (como a lombriga) ao corpo. Os que mais têm apresentado riscos à espécie humana são os vírus. Considerando-os seres vivos, as relações que ele estabelece para se reproduzir podem ser consideradas um tipo de parasitismo dos mais graves, pois, se não fosse o sistema imunológico dos animais, os vírus simplesmente destruiriam seus organismos hospedeiros. O resultado disso no homem vai desde gripes leves (já que a seleção natural só fez sobreviver aqueles que são resistentes a ela) até a AIDS que, não só o nosso corpo não resiste a ela, como o lado cultural e científico do homem ainda não desenvolveu uma cura (como ocorreu com outras doenças como a tuberculose). Embora tais parasitas sejam prejudiciais ao homem por diminuir a sua população, eles evitam o crescimento exacerbado da espécie, algo que, caso ocorresse, aumentaria as competições intra e interespecíficas. Ou seja, o parasitismo permite o equilíbrio do ecossistema.

Em decorrência das relações estabelecidas do homem com ele mesmo, da forma como é organizada a sociedade, o ser humano é prejudicado por se sentir sozinho, e o sentimento de carência é eminente. Atualmente, a tecnologia é um meio de entretenimento do homem contemporâneo. Porém, os animais de estimação vêm suprindo a carência humana desde muito tempo atrás, deste modo, sobreviveram aqueles que conseguiram se adaptar ao meio. Por exemplo, o cão é considerado o melhor amigo do homem. Este recebe a educação e os cuidados semelhantes aos nossos, e retribui através de seu companheirismo.

 

Homens, cães, bovinos e transgênicos

Os cães possuem características dos lobos selvagens (primeiro animal a ser domesticado) porque a sua espécie pôde sobreviver à restrição de alimentos, às diversas condições climáticas, e aos variados tipos de terreno. A domesticação dos lobos não apresentou grande dificuldade ao homem, pois os povos primitivos levavam uma vida semelhante; a caça também era a principal forma de sobrevivência. Conforme os filhotes de lobo nasciam, eram criados pelos humanos. O lobo desde cedo domesticado, ajudava na defesa do acampamento ou do território contra os inimigos, visto que este era um comportamento perfeitamente natural para ele.

Assim como os povos primitivos alteraram os seus hábitos com o tempo, os lobos também modificaram as suas características. Alguns eram mais agressivos, outros protegiam os rebanhos com maior facilidade. Por isso, o homem começou a fazer experiências, ou seja, iniciou o cruzamento de lobos que possuíam características favoráveis a ele; conhecido como criação seletiva. A partir daí, originaram-se todas as diversas raças de cães, que em alguns casos, são capazes de desempenhar tarefas que dificilmente nós seríamos capazes de executar sozinhos. Muitos deles são treinados para guiarem cegos, guardarem rebanhos, detectarem o rasto de criminosos ou de pessoas desaparecidas, puxarem cargas pesadas, guardarem casas e fábricas, descobrirem pessoas soterradas, e caçarem ratos e outros predadores. Mas, a criação seletiva também pode ser nociva para os cães, gerando-se deficiências físicas, respiratórias e psicológicas.

Se as condições de reprodução não são artificiais como estas, o processo que ocorre é o de seleção natural. Segundo Darwin, apenas os animais que melhor se adaptam ao meio ambiente sobrevivem. Estes se reproduzem e transmitem suas características úteis aos filhotes. Porém, há possibilidade de alguns nascerem com anomalias, por ocorrer alguma falha na variação transmitida por seus pais. É comum o enfraquecimento do animal devido a esta característica, levando a sua morte na maioria das vezes, antes dele conseguir procriar, portanto a anomalia não é transmitida à geração seguinte.

A maioria das pessoas que tem cão hoje em dia, não o utiliza para fins de caça, esporte ou trabalho, como os povos primitivos. Dão-lhe o papel de companheiro e amigo, de animal de estimação. Estes seres são perfeitamente adaptados, leais e dedicados aos seus donos. Há a relação de cooperação entre o homem e o cão, pois a espécie humana contribui para a reprodução da espécie do cão, já o cão, desde os tempos dos povos primitivos, vem se mostrando um grande companheiro do homem.

Quanto aos lobos selvagens, eles são perseguidos e caçados, com o intuito de os rebanhos serem protegidos. Porém, assim os lobos não desempenham o papel atribuído pela Natureza: o de agentes de controle natural da população herbívora selvagem. Sem eles, as manadas aumentam e devastam cada vez mais os campos, provocando o desequilibro na cadeia.

Como a criação seletiva dos cães, os transgênicos são gerados através de técnicas de cruzamento que visam o aperfeiçoamento do original. Estes são organismos que contém material genético de outros organismos, e que possuem características novas e, na maioria das vezes, melhoradas. Se não houvesse a manipulação genética, provavelmente estes organismos não teriam combinado os seus DNAs de forma natural.

Os alimentos transgênicos possuem sua semente modificada em laboratório. Essa técnica ocorre, pois assim as plantas podem resistir às pragas, insetos e as grandes quantidades de inseticidas. Mas, estes alimentos são prejudiciais ao meio ambiente e ao nosso organismo.

Há tanta gente no mundo e as empresas pensam tanto em lucrar, que diversas medidas são tomadas para uma produção em curto prazo e larga escala. Para evitar os danos causados pelas pragas e insetos, o homem inventou antes mesmo da técnica de manipulação genética, a técnica de congelamento dos alimentos.

 

Conclusão

Através deste trabalho foram questionados o ser humano e as suas interações ecológicas únicas que não existem entre outros seres vivos. O homem, ao desenvolver técnicas de agricultura e domesticação, entre outras, fez com que as suas interações com as outras espécies fossem estabelecidas de forma diferenciada, "humanizada". Vemos a cultura transparecer em diferentes aspectos.

Interações como o mutualismo e parasitismo com bactérias podem ser classificada em um âmbito mais natural. Porém, não há nenhuma relação entre seres vivos que seja comparável à cooperação com os seres que o homem consome ou a cooperação através da domesticação. Em se tratando da criação seletiva ou dos transgênicos então, não há nem um nome para isso na ecologia.

Embora haja diversas interações ecológicas nas quais o homem se prejudica, elas são essenciais para o equilíbrio do ecossistema, e são elas que nos mantêm na existência. O homem não é um ser independente, pois está totalmente ligado ao meio que vive e aos seres vivos com os quais interage. Qualquer iniciativa dele que vise modificar o meio, desde a criação de gado, uma plantação de cana, ou até a construção de uma cidade, não há dúvidas de que a dinâmica de populações estará sendo altamente afetada, e o equilíbrio do ecossistema correrá riscos.

Tais riscos, algum dia, podem se voltar contra o homem, e diminuir o índice populacional que até agora tanto cresceu.

 

Mapa Conceitual

mapa-interacoeshumanas

 

Bibliografia

AMABIS, José Mariano. MARTHO, Gilberto Rodrigues. Fundamentos da biologia moderna. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 1997.

COOK, David. PITT, Valerie. Lobos e cães. Lisboa: Verbo, 1984

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%B5es_ecol%C3%B3gicas

Visitado em 10/11/2008

http://www.medicinageriatrica.com.br/2007/08/23/saude-geriatria/probioticos-bacterias-intestinais/

Visitado em 11/11/2008

http://pt.wikipedia.org/wiki/Transg%C3%AAnicos

Visitado em 12/11/2008

Última atualização em Qua, 02 de Setembro de 2009 00:37  


A sua escola tem (tinha) muito "decoreba"?
 

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