Das rizocárpicas à dinâmica intercultural

Qui, 04 de Junho de 2009 13:26 Rodrigo Travitzki Rizoma
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Mais uma bela frase sobre os "rizomas vegetais" que pode ser fértil para a imaginação dos "rizomas metafóricos". O Brasil é o país do rizoma cultural...

Rizocárpica é o nome que se dá ao "vegetal cujas partes subterrâneas emitem anualmente brotos na superfície". Esta pode ser uma metáfora para representar as intenções do processo de cooperação científica que se começou a construir entre o Instituto de Etnologia e Antropologia Cultural da Universidade dos Estudos de Perúgia (Itália) e do Núcleo Mover do Centro de Educação da Universidade  Federal de Santa Catarina (Brasil), no sentido de contribuir para o desenvolvimento de práticas de educação intercultural. Nesta perspectiva, propõe-se construir relações de cooperação entre diversos grupos e instituições. Espera-se, portanto, que este percurso cresça como um rizoma, isto é, como "caule perene, no mais das vezes subterrâneo, que serve como órgão de reservas" para as propostas de educação intercultural, da mesma forma que as culturas constituem patrimônios indispensáveis para a organização econômico-política da sociedade.

  1. A educação intercultural se refere a grandes questões emergentes no processo de globalização da economia e da comunicação no mundo contemporâneo. Na Europa ocidental consiste na tematização elaborada em estreita relação com a presença de imigrantes que, em quantidade cada vez mais maciça, buscam inserir-se no mercado de trabalho e na vida social de vários países, inclusive aqueles que, não tendo um passado de poderio colonial, não tinham até recentemente conhecido a imigração proveniente do terceiro mundo. Pela própria natureza de sua origem, a educação intercultural tem como finalidade promover a integração entre culturas, a superação de velhos e novos racismos, o acolhimento dos estrangeiros e, particularmente, dos filhos dos imigrantes na escola. Mas existem na Europa também dramáticas situações de conflito inter-étnico (valendo como exemplo extremo o que acontece na ex-Iugoslávia) que ocorrem em gritante contraste com o projeto de construção  da União Européia. E evidencia-se também como os conflitos emergem mesmo entre comunidades autóctones de um mesmo país quando explodem os bairrismos,  a fetichização da identidade cultural, que representam interesses de alguns grupos socio-econômicos.

    (...)

  1. Na realidade brasileira - em particular na região sul, onde durante o último século e meio ocorreu afluxo maciço de diferentes correntes migratórias provenientes da Europa, Ásia e Médio Oriente que têm desenvolvido itinerários diversos de integração e conflito entre elas e com populações locais descendentes de indígenas, portugueses e africanos - a dimensão intercultural se reveste de significados específicos. Colonialismos e migrações, dominações e convivências têm induzido profundos processos de aculturação: fusões sincréticas e violentas, perdas de identidade cultural encontram na própria formação da sociedade brasileira e foram objetos de análise por parte de numerosos pesquisadores latino-americanos e europeus que procuraram reconstruir em chave histórico-antropológica os desdobramentos e os multiformes resultados dos contatos - espontâneos ou forçados - que se verificaram entre os diversos grupos. No Brasil já nos encontramos numa situação, por assim dizer, intercultural, mesmo se isto não pertence a um passado concluído, mas manifesta um grande dinamismo de desenvolvimento (pensamos nos sincretismos religiosos e de hábitos alimentares) e continua a apresentar novas perspectivas (por exemplo, os problemas de integração e de conflito que poderão decorrer da implantação do Mercosul).”

Fonte:

RIZOMA - educação intercultural - Reinaldo Matias Fleuri

http://www.mover.ufsc.br/html/FLEURI_1997_Rizoma_EI.htm

 

Última atualização em Ter, 01 de Setembro de 2009 23:01